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Cris Guerra dá dicas de moda e fala sobre seu estilo

Cris Guerra

Quando pequena, CrisGuerra detestava ganhar roupas de presente. Gostava mesmo era de vestir sua boneca Susi com as várias peças novas que vivia comprando para ela. Mas, com o passar do tempo, a roupa virou uma paixão. Na adolescência, por ainda ter um corpo de menina, e não de mulher, as calças jeans a faziam se sentir mais feminina. "A incursão pela moda foi uma forma de me reafirmar, de me encontrar enquanto mulher. Mas só fui me dar conta disso mais tarde. Era conhecida como consumidora compulsiva – o que se agravou depois da morte precoce da minha mãe – e fazia piada sobre mim mesma e minha relação com o consumo de moda. Na verdade era um gosto genuíno pelas roupas, coisa que só aprendi a ver como potencialidade depois", conta.

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Com seu blog "HojeVouAssim" ela literalmente lançou moda. A ideia era registrar todos os dias a roupa que estava usando para ir trabalhar. "Eu estava criando o primeiro blogdelooks diários do Brasil, sem perceber ou pensar nisso", diz. A partir daí, Cris se tornou a percussora das it-girls, termo que se refere às garotas ou mulheres que são exemplo de estilo. Hoje é reconhecida por personalidades do universo da moda e divide seu tempo entre o site, palestras, coberturas de grandes desfiles, colunas em revistas e em programas de rádio. Toda essa experiência se transformou no livro "ModaIntuitiva" (Editora Lafonte), que mostra de uma forma leve e divertida como a moda e o estilo podem ser desenvolvidos por qualquer pessoa, combinando as tendências com a individualidade, o estado de espírito, a mensagem e as informações de quem veste.

Em entrevista ao BolsadeMulher, ela fala um pouco mais sobre sua relação com a moda, o sucesso do blog e dá dicas para quem quer encontrar o próprio estilo.

Como surgiu a ideia do blog e, posteriormente, do livro?

O blog surgiu de um impulso. Meu filho tinha quatro meses e, além da alegria pela vinda dele, eu estava vivenciando o luto pela morte do pai dele, dois meses antes de seu nascimento. Por isso tinha começado a escrever o blog "Para Francisco", onde eu construía para meu filho as memórias do pai que ele não pôde conhecer e elaborava meu luto. Acho que precisei de um contraponto. Um dia, gostei mais do que vesti para o trabalho e resolvi registrar. Sem perceber, estava criando o primeiro blog de looks diários do Brasil. Mais tarde escrevi no blog um texto em que coloco toda pessoa como sua própria estilista e resolvi fazer também um vídeo com imagens que o ilustrassem. O diretor editorial da Lafonte, Pedro Almeida, que tinha editado o meu livro "Para Francisco" (síntese do primeiro blog), já vinha me pedindo um livrosobremoda e, quando viu o vídeo, que teve uma repercussão muito grande, me ligou imediatamente. Entendi que tinha algo de relevante para dizer sobre minha experiência de quase seis anos fazendo looks do dia. Havia chegado a hora de tirar esse projeto da cabeça e passar para o papel.

[[{"fid":"","view_mode":"default","fields":{"format":"default","field_file_image_description[und][0][value]":""},"type":"media","link_text":null,"attributes":{}}]] Alguns looks de Cris Guerra (Crédito: Fernando Martins/Pedro Nicoli)

Você literalmente lançou moda com o blog e foi a primeira it-girl. Como é ter sido percursora?

É muito gratificante saber que fui a primeira, mesmo com a consciência de que eu não tinha ideia do que estava fazendo ao seguir aquele impulso. Acredito que as coisas mais despretensiosas são as mais promissoras, pois são feitas naturalmente. Quando me chamaram de "it-girl", há alguns anos, eu não sabia o que significava e achei engraçado ser considerada uma. É uma expressão que comprova o quanto a moda é movida por permissões. Preciso que alguém use antes alguma coisa de um jeito novo para me sentir à vontade para usar também. Brinco com a expressão, pois as verdadeiras it-girls viram referência até quando não fazem nada demais ou quando erram feio. Isso é chato, para não dizer ridículo. Eu, por exemplo, se sou it-girl para algumas pessoas, vou decepcioná-las bastante no fim de semana, quando saio sem maquiagem e com as roupas menos criativas do mundo. Me permito ser feia, sem graça, invisível, isso é fundamental para continuar sendo eu mesma. E acompanho poucos blogsde moda, por falta de tempo, mas também porque evito ficar pesquisando demais. Acho que acessar muita informaçãode moda é correr o risco de ficar sugestionada e perder a individualidade. Prefiro consumir outras referências, como arte, decoração, viagens, literatura. Existem blogs sensacionais de moda, tanto mais informativos como de look do dia também, mas me incomodam um pouco os que parecem falar de consumo o tempo todo.

Você acredita que é possível se vestir bem gastando pouco?

Sim, mas não sem gastar nada. É possível investir um pouco mais em peçasclássicas e mais duradouras, principalmente as de alfaiataria ou outras cuja modelagem precisa ser mais bem cuidada, e mesclar com outras mais baratas. As lojas de departamentos (fast fashion) são sempre uma boa opção para complementar o armário. É uma questão de saber dosar. Mas é importante entender que gastar pouco não é comprar sempre barato: às vezes é economizar para comprar uma peça de qualidade, que você vai usar muito, então o custo-benefício vale o investimento. Conheço gente que adora fast fashion e compra quilos de roupasbaratas. Será que é preciso? Recomendo cautela para não se deixar levar por uma roupa cujo principal atributo é o preço. Investir pouco numa roupa que você não vai usar é bem pior que investir muito em uma que vai ser bastante usada.

[[{"fid":"","view_mode":"default","fields":{"format":"default","field_file_image_description[und][0][value]":""},"type":"media","link_text":null,"attributes":{}}]] Mais alguns looks de Cris Guerra (Crédito: Marcos Leão)

Qual é o maior erro que as pessoas cometem ao buscar o próprio estilo?

Tentar parecer ser. Imitar alguém faz parte do processo, mas com a consciência de adaptar o que você admira no outro para a sua forma de ser. Copiar o estilo de alguém que se admira é um bom começo, mas não pode se tornar uma obsessão. Tenho meus exemplos e ícones de estilo, todo mundo deve ter os seus! Mas sabe as pessoas que fazem plástica para parecer uma determinada celebridade? Elas estão abrindo mão de si mesmas, é uma deturpação de personalidade. E o maior equívoco é ter o parâmetro no outro. O primeiro passo é fazer as pazes consigo e trabalhar com a sua realidade. Quando tenho a mim mesma como parâmetro, posso ser melhor a cada dia. Mas se eu resolver me comparar a alguém, sempre vou estar em desvantagem. Quando entendemos que todo mundo é gente, inclusive as celebridades, e que todos temos insatisfações, as coisas começam a mudar. Começamos a parar de mitificar o outro e a acreditar mais em nós.

Todo mundo pode usar de tudo ou há peças que devem ser evitadas?

O importante é se sentir bem! O livro insiste num ponto fundamental: é preciso mudar o ponto de vista a respeito de si mesmo e aprender a desconsiderar o olhar do outro. A principal chave é dentro da gente. Acredito que você pode usar uma peça que em princípio não é recomendada para o seu biótipo e, ainda assim, ficar feliz da vida. E sentir-se bonita tem um efeito incrível sobre o que a gente transmite para os outros. Eu, por exemplo, não deveria usar calça de cintura alta, pois tenho tronco curto e pernas longas. Mas às vezes uso e me sinto bem. A diferença é a segurança que passo, o fato de estar zero preocupada com o olhar do outro. Tenho uma amiga gordinha que é charmosa e segura de si. Outro dia a encontrei e ela estava de legging e bota. Não é o que uma consultoria de imagem recomendaria, mas ela estava linda e feliz. O estilo é um movimento de dentro para fora.

[[{"fid":"","view_mode":"default","fields":{"format":"default","field_file_image_description[und][0][value]":""},"type":"media","link_text":null,"attributes":{}}]] Capa do livro "Moda Intuitiva" (Editora Lafonte)

E quais as peças que não podem faltar no armário de qualquer mulher?

Não gosto de dizer que existem peças básicas. Acredito que existam escolhas naturais de cada um, "clássicos" que você elege para sua vida, peças que vão reinar por muito tempo, mesmo que a rigor não sejam necessariamente consideradas clássicas. Existem peças que serão naturalmente encontradas no armário de 99% das pessoas e, no caso das mulheres, acredito que sejam a calçajeans, a camisabranca e a sapatilha. O resto é com cada um. Costumo dizer que toda produção precisa de um clássico como alicerce. Juntar muitas novidades e invencionices num só look pode ser complicado. Mas acho que a gente precisa se divertir também e usar algumas peças que são febre por um período faz parte. É importante se permitir mudar de opinião, ou a moda vira um aprisionamento. E eu vejo a moda como libertação. A gente já tem amarras demais na vida!

Seu livro é definido como um 'não manual' para ajudar cada um a descobrir seu próprio estilo. Como conseguir isso?

Acho que existe uma dica principal: o estilo de cada um é único e particular. Esse é o maior atributo de quem conhece o seu estilo, pois compreende que tem que voltar seu olhar para dentro e blindar o que vem de fora. É difícil, mas possível. Você não vai implantar um estilo, comprar pronto ou pagar alguém para fazê-lo. No máximo se deve tomar emprestado um estilo pronto e usá-lo. Mas não será o seu estilo. O verdadeiro estilo tem uma boa dose de imperfeição, um traço humano que é você quem vai colocar.

Quem não sabe muito bem como combinar as peças, é melhor continuar no básico ou vale ousar e correr o risco?

Vale ousar e correr o risco. Se não, o aprendizado nunca vai acontecer. É importante exercitar. E errar será necessário. Não se aprende a andar de patins sem cair.