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Por trás da família margarina

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Todos são lindos. A maioria é loura ou tem cabelos lisos, pele de pêssego e sorriso de cristal. As crianças são perfeitas. Educadas, calmas, alegres, saudáveis, nunca respondem aos pais e não correm gritando pela casa. O cachorro tem um pêlo impecável, não late e só falta falar. A mãe, todos os dias, acorda de bom humor e prepara a mesa de café. TPM?! Nem sabe o que é isso! O marido é carinhoso e atencioso, além de muito bem sucedido. Vai para o trabalho, mas antes deixa os filhos na escola... Não! Isso não é o cenário de mais uma das séries americanas da Sony, nem o perfil da família que estreará a próxima novela global. Isso é o modelo usado em publicidade para expressar a idéia de família perfeita, feliz e saudável... Mais conhecida como "família margarina". Esteticamente, muitos clãs até correspondem ao estereótipo. No entanto, quando observamos a realidade nesses lares, os potes sempre revelam outros conteúdos.

A foto em cima do móvel é irretocável. Pai, mãe e filhos fofos. Só que, ao vivo e em cores, a realidade é outra. A publicitária Valentina*, de 32 anos, conhece bem o paradoxo da tal perfeição, que, para ela, nada mais é do que hipocrisia. Ela, que faz o tipo "Barbie", é casada, há 13 anos, com um executivo e modelo. "O difícil, para mim, é conviver com duas verdades. Em uma, vivo o que as pessoas acham que a minha vida é. Um casal perfeito, feliz, rico e sem problemas ou qualquer tipo de desavença. Na outra, vivo o que, realmente, ela é. Uma vida cheia de ranços, de mágoas e má resoluções de um casamento que já não existe. Eu vivo dentro de um pote de Doriana!", ironiza Valentina.

Margarina vencida

A percepção de que a harmonia familiar muitas vezes não passa de um mito midiático acontece quase sempre na adolescência. E, se deparar com a vida como ela realmente é, não é a melhor das experiências. No entanto, criar mentiras ou segredos para escamoteá-la é, com certeza, ainda pior -  pois, assim, são formados os castelos de areia. Rodrigo Maia, 19 anos, levava uma vida feliz. Era o temporão da casa, com duas irmãs e um irmão. "Sempre contaram pra mim que eu cheguei de surpresa. Que minha mãe não esperava mais filhos. Cresci sendo o caçulinha da família. Mas quando fiz 13 anos, minha irmã mais velha ia casar, decidiram, então, me dizer a verdade: eu era filho dela. Minha mãe era minha avó. Imagina isso. Eu surtei. Achei uma tremenda sacanagem comigo. Faço análise até hoje, de família, inclusive", revela Rodrigo, que hoje admite estar refeito do choque.

De acordo com a psicanalista Priscila Faria Gaspar, por mais feia que seja a verdade, não há nada mais correto do que contá-la desde o início. "Os tabus – as coisas que não são ditas nem faladas, como adoção, gravidez antes do casamento ou suicídio de algum membro da família – apenas criam outros mitos e tabus", afirma. Sustentar uma realidade falsa, não faz bem à cabeça de ninguém e, segundo Priscila, nem ao corpo. A atitude de negar as mazelas, a incompletude, materializa-se, a nível inconsciente, através de acidentes, doenças psicossomáticas ou mesmo de pesadelos. "Doenças de pele, imunológicas e até câncer são resultantes dessa dificuldade do sujeito lidar com uma outra produção, que não é a da perfeição", pontua o psicólogo Roberto Barcellos.

Para evitar efeitos tão devastadores, é necessário saber buscar um equilíbrio e abrir mão, algumas vezes, da satisfação imediata para acreditar na construção de uma família alegre, unida e feliz. Mas, como tudo que é real, com suas falhas, obstáculos e intempéries. Aprendendo a ver o lado mais saboroso da vida, a margarina pode até virar manteiga!