Filhos: educação x personalidade

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Toda mãe tem uma enorme preocupação em relação à educação de seus filhos. Você busca sempre dar um bom exemplo, oferecer tudo do bom e do melhor para a prole, ensiná-los a fazer escolhas e a diferença entre o certo e o errado. Se esses cuidados fossem suficientes para garantir filhos responsáveis, educados e carinhosos, irmãos teriam em comum mais do que características físicas. Na prática, não é bem isso o que acontece. Mais dia, menos dia, toda mãe acaba se perguntando por que cargas d’água a filha mais nova é tão problemática, enquanto o primogênito é um doce de menino.

Até os 21 anos, os irmãos gêmeos João Paulo e Clarice Rybroek moraram debaixo do mesmo teto. Durante a infância e adolescência, estudaram nos mesmos colégios, chegando inclusive a dividir a sala de aula. "Da hora de acordar a hora de dormir, fazíamos tudo juntos", lembra João Paulo. Mas desde bem pequenos, apesar do grude, os irmãos nunca compartilharam muitas afinidades. "Até hoje somos pessoas extremamente diferentes. Eu sempre fui super-organizado, oposto de minha irmã, que é bagunceira até hoje. Além disso, ela é uma pessoa extrovertida, de personalidade forte e explosiva, enquanto que eu sou mais reservado", avalia o irmão. Tímido, João Paulo recorda da época rebelde de sua irmã - da qual ele nunca compartilhou. "A Clarice sempre foi a filha revoltada. Passou por uma fase punk, na qual chegou a pintar o cabelo de rosa, além de fazer vários piercings e tatuagens. Depois, ainda inventou que queria tocar guitarra. Já eu, nunca tive interesse nem em chegar perto do instrumento, quanto mais em ter tatuagens", compara. Mas o que faz com que dois irmãos, gêmeos, criados na mesma família e educados sob as mesmas regras, desenvolvam personalidades tão diferentes?

Apesar de sabermos o quanto a educação familiar é fundamental para a construção dos valores de nossos descendentes, ela não é a única a moldar a personalidade deles. O cérebro, na infância, funciona como uma esponja, absorvendo tudo que está ao seu alcance. Da fala do personagem do desenho animado à música cantada pela faxineira, tudo influencia a rica criatividade dos pequenos, em maior ou menor grau. Mas e quando eles estão fora do seu alcance e você não pode controlar o que eles fazem, comem e escutam? Longe das asas da mamãe, as crianças se abrem a um novo mundo, repleto de amigos nem sempre tão bonzinhos quanto você gostaria.

A psicóloga Carolina de Alvarenga Sales, que atende a crianças e adolescentes na clínica paulista Espaço Leve, dá algumas dicas para os pais. "Mesmo recebendo uma educação muito semelhante, a percepção de cada filho sobre a realidade será diferente. É a questão do copo, que tanto pode estar meio cheio, quanto meio vazio", exemplifica. Carolina ajuda a compreender o que interfere na formação da personalidade das crianças. "No dia-a-dia, eles recebem influências externas, no caso, os fatores ambientais, como família, amigos e professores. Esses fatores são fundamentais, mas não podemos nos esquecer do lado intrapsíquico. É ele quem vai nos fazer interpretar os fatos de forma particular, tornando-nos pessoas diferentes umas das outras", avalia. O intrapsíquico se constitui a partir do nascimento da criança, e se desenvolve de acordo com os estímulos que recebe, como numa via de mão dupla.

A constelação familiar:

Além desses fatores, a psicanalista Glória Maron aponta um outro fator. "O esforço que alguns pais fazem para tratar todos os filhos da mesma forma, não acontece, mas nem por isso significa desamor. Cada filho tem um lugar na constelação familiar que lhe é peculiar. É importante que os pais estejam atentos a isso. Apenas percebendo as singularidades de cada um, eles poderão respeitá-las", sugere Maron. E os fatores não ficam por aí. Você já parou para pensar que a ordem do nascimento pode influenciar na personalidade dos pequenos? Esta é a teoria defendida pelo pesquisador norte-americano Frank Sulloway, no livro Born to rebel: birth order, family dynamics and creative lives (Nascido para se revelar: ordem de nascimento, dinâmica familiar e vidas criativas). De acordo com o pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o simples fato de ser o primogênito, leva uma criança a desenvolver uma personalidade conformista, conservadora e defensiva, enquanto os caçulas costumam se dar ao luxo de despertar seu lado criativo, levar a vida menos a sério e desenvolver uma faceta aventureira e rebelde.

A psicoterapeuta Marlúcia Pessoa concorda com a tese de Sulloway, apesar de ressaltar que há exceções. "É uma questão de estrutura. Cada criança é recebida num momento diferente da família, dependendo do contexto deste momento, ele será tratado de uma determinada maneira", avalia Marlúcia. Neste contexto, está incluída a ordem do nascimento. "Normalmente, há muitas expectativas em torno do filho mais velho, fazendo com que ele carregue muitas responsabilidades. Já o caçula tende a ser imaturo, pois por saber que ele é o último, a família não quer que ele cresça", afirma a psicoterapeuta. Mas não tem jeito. Eles crescem, e rápido! Quando nos damos conta, a adolescência – fase tão temida pelos pais – já chegou.

Quando chega a adolescência:

É exatamente aí que mora o perigo. Se pegar a filha falando um palavrão com enorme naturalidade, durante uma entusiasmada conversa ao telefone com a amiguinha, já é um susto, imagine flagrá-la bebendo cerveja. Evitar beber na frente das crianças, e passar horas discorrendo sobre os malefícios causados pelo tabaco e pelo álcool, não basta. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal da Paraíba, com 650 jovens de escolas públicas e particulares de João Pessoa, revelou que 40% dos alunos que consomem álcool, começaram a beber por influência dos amigos. Dado ainda mais alarmante é que grande parte deles admite ter iniciado o hábito aos doze anos.

A psicoterapeuta Marlúcia Pessoa ensina: "Muitos jovens começam a beber por influência dos amigos, mas se a família estiver atenta, pode evitar problemas. Tudo vai depender do diálogo. Não se deve punir, mas sim orientar". Mesmo com a existência de tantos fatores alheios ao controle dos pais, os valores que a família ensina continuam sendo muito importantes no desenvolvimento do caráter dos filhos. "E não basta falar, tem que ensinar. Dar o exemplo continua sendo a melhor saída. É como a professora que pede berrando para que os alunos falem mais baixo", exemplifica a psicoterapeuta. Para educação não há receita de bolo, mas com amor e paciência – e quem sabe, uma boa palmada -, tudo tem jeito.