Mulheres conquistam de vez o mercado de produção cervejeira

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Falar de cerveja e não falar em mulher é impossível. Não, a afirmação nada tem a ver com as belas moças que até pouco tempo exibiam seus corpos nos anúncios publicitários de dez entre dez cervejarias. Muito menos é a reprodução de uma conversa de boteco. Poucos sabem, mas registros de até 4 mil anos a.C. dão conta de que na Babilônia e na Suméria a produção de cerveja era atividade feminina e as mulheres cervejeiras da região, chamadas de Sabtiem, eram consideradas pessoas especiais, detentoras de poderes mágicos.

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Relatos mais recentes, do século 19, revelam que na província Mecklenburg, na Alemanha, era comum que as recém-casadas incluíssem em suas preces a seguinte frase: "meu Deus, ajude a cerveja quando eu a produzir, ajude o pão que eu amassar". Pode parecer curioso nos dias atuais, tendo em vista que o mercado cervejeiro há até pouco tempo era dominado por homens, mas a hegemonia masculina é recente e está ligada à produção da bebida em escala industrial, que teve início no final do século 18, com o advento do lúpulo como matéria-prima. A utilização do grão trouxe consigo tecnologia e novas técnicas de preparo, além do pensamento machista de que as mulheres não poderiam se adaptar a elas, o que as afastou das indústrias e as manteve distante da produção da bebida.

De volta ao presente, pesquisas comprovam que as moças não só voltaram a produzir cervejas como passaram a beber mais, estreitando os laços de amor com a loira gelada. Dados divulgados em maio de 2010 pela Sophia Mind Pesquisa e Inteligência de Mercado, do grupo de comunicação feminina Bolsa de Mulher, de São Paulo, SP, dão conta de que, do total de mulheres que consumiram bebida alcoólica no período pesquisado, 88% preferem cerveja e 38% a ingerem pelo menos uma vez por semana.

[[{"fid":"","view_mode":"default","fields":{"format":"default","field_file_image_description[und][0][value]":""},"type":"media","link_text":null,"attributes":{}}]] Acervo pessoal/Kathia Zanattal

A beer sommelière e engenheira de alimentos Kathia Zanatta, de Indaiatuba, SP, é exemplo do crescimento do interesse feminino no que diz respeito à produção e pesquisa tecnológica da bebida. Formada em renomadas escolas como a Doemens Akademie e Siebel-Doemens, ambas na Alemanha, Kathia trabalhou para a Schincariol e Baden Baden com pesquisa para o desenvolvimento de novas fórmulas.

Hoje, está entre os mais respeitados nomes do mercado nacional, além de fazer parte do júri de importantes concursos internacionais de produção, como o European Beer Star e o World Beer Cup. "A mulher evoluiu profissionalmente e isso reflete no mercado cervejeiro. Além dessa ascensão, a relação com o consumo também melhorou.

A cada dia temos mais opções disponíveis, tanto de diferentes estilos de cerveja que agradam aos mais distintos paladares quanto de formas de consumo. Como exemplo, podemos citar taças de formatos e tamanhos que possibilitam a degustação em menores quantidades, com maior delicadeza, fatores que podem atrair, ou afastar, algumas mulheres", afirma.

Flores e cerveja

A advogada Karina Garrido é casada com Adriano Flores, cervejeiro artesanal. Há três anos, emprestou o sobrenome do marido para denominar o primeiro exemplar da bebida produzida por ela, a Lady Flowers. A homenagem, porém, não parou por aí. Ela resolveu ir além e, literalmente, adicionou flores à produção."Em minhas pesquisas, não só descobri a extensa participação feminina no mundo cervejeiro desde os primórdios, como também a utilização de flores e outras especiarias para conservar e amargar o líquido. Dessa forma, resolvi literalmente introduzi-las em minha cerveja", conta Karina.

Apesar de a Lady Flowers ainda não ser comercializada fora de festivais e grandes eventos, Karina investe em novas fórmulas e em conhecimento. Hoje, produz a Belgian Speciality Ale com jasmim, American IPA com calêndula, Weiss com camomila e American Light com hibisco, e está aprimorando duas novas receitas com girassol e orquídeas. Além disso, toca a loja virtual Cia da Cerveja que comercializa utensílios para produção caseira e finaliza em breve o curso de beer sommelière.

A zootecnista Stela Patrocínio, mestre-cervejeira da microcervejaria Othomania, de Pompéia, SP, também recebeu um empurrãozinho familiar para iniciar a produção profissional da bebida. Nascida em berço de produtores de equipamentos para cervejarias, cresceu em meio à microprodutores. O incentivo veio quando seu pai se associou a dois grandes nomes do mercado para o desenvolvimento de produtos para os bares da cerveja Devassa: Kátia Jorge e André Nothaf. "Minha família sempre teve como projeto abrir um brewpub e acabei abraçando esse sonho. Me mudei para o Rio de Janeiro e fiz estágio com Kátia Jorge. Desde lá não parei mais de produzir. Em 2009, abri minha própria cervejaria, que hoje conta com uma filial em Itajaí, SC", conta.

Quando o assunto é produção de cervejas por mulheres, Stela afirma nunca ter tido problemas em relação à aceitação de sua cerveja pelos marmanjos e ressalta que o maior empecilho para a produção da bebida artesanalmente está muito longe das discussões de gênero. "A produção de microcervejarias é complicada, tanto para homens quanto para mulheres, no que diz respeito às altas taxas de impostos. Os produtos artesanais acabam chegando aos pontos de venda com um preço elevado", explica.

Não se pode falar em produção feminina no Brasil sem citar Kátia Jorge. Formada em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj) é doutora em Tecnologia Cervejeira, atuando em grandes cervejarias como Brahma e Devassa."Respiro cerveja desde 1984, quando me casei e fui morar na Alemanha. Lá tive a oportunidade de estudar na Universidade Técnica de Berlim, onde cursei Tecnologia Cervejeira. Hoje, sou professora de pósgraduação em cervejaria da Universidade Uniasselvi, em Blumenau, coordenadora acadêmica do curso de sommelier de cerveja da Doemens Akademie, da Alemanha, e do Grupo Técnico de Treinamento em Gestão Sensorial, da Flavoractivi, da Inglaterra, e vice-presidente da Associação Brasileira dos Profissionais em Cerveja e Malte (Cobracem)", conta.

Kátia diz que por onde andou desde o início de sua atuação no setor cervejeiro sempre instigou a curiosidade masculina."Nunca sofri preconceito por ser mulher, mas desperto curiosidade. As mulheres têm fundamental participação na história da cerveja, estamos apenas retomando nosso lugar, seja produzindo, degustando ou mesmo consumindo o produto. Não podemos esquecer também da mudança gradativa nas propagandas, substituindo a figura da mulher objeto por uma presença feminina mais atuante, como consumidora da bebida", completa.

Clube da Luluzinha

Mulheres gostam de se reunir para conversar, trocar experiências e receitas, falar bem (e mal) do marido... Recentemente elas têm regado a conversa com a bebida que produzem. É assim na confraria feminina FemAle Carioca, do Rio de Janeiro, RJ, criada em 2008 por um grupo de seis mulheres (Tatiana Gomes, Luciane Tavares, Eduarda Dardeau, Talita Figueiredo, Flavia Melo e Regina Carvalho) que sentia a necessidade de provar os milhares de bons exemplares (que começaram a aparecer nas gôndolas das adegas brasileiras ou eram trazidas de viagens por amigos), visto a importância da degustação para a produção caseira da bebida.

Os encontros são realizados mensalmente na casa de uma das FemAles. Nessas reuniões, petiscos e pratos são harmonizados com cervejas nacionais e importadas. Quando se decidem pela rua, vão juntas conhecer a carta de cervejas de novos bares ou outras mulheres que, assim como elas, são aficionadas pela bebida. Uma vez por mês acontece o ponto alto das confreiras: o FemAle Brewday, momento da brassagem coletiva, quase sempre com a presença de convidadas.

"Todas nós tínhamos nossas histórias individuais com a paixão pela cerveja, que se cruzaram no momento em que descobrimos afinidades, como a fabricação caseira. Cerveja para nós é hobby, nos reunimos para degustar, harmonizar e produzir, além, claro, de celebrar nossa paixão", afirma Tatiana. Em São Paulo, SP, as moças do Maltemoiselles, formado em 2010 por Julia Reis, Letícia Massula, Aline Araújo, Tatiana Damberg, Lara Januário, Faby Zanelati e Ingrid Calderoni, reúnem-se mensalmente para a degustação de suas produções. As reuniões definem as próximas cervejas a serem produzidas, possíveis harmonizações e painéis de estudo.

Nenhuma delas tem a produção de cerveja como profissão, mas algumas possuem bastante proximidade com o tema. Júlia, por exemplo, dá aulas de como fazer cerveja e Ingrid escreveu um livro sobre o assunto (O roteiro secreto das loiras, ruivas e morenas, da editora Panda Books) e é editora do site Trilha da Cerveja. Já Aline trabalha no setor de marketing de uma grande importadora da bebida. "Nos reunimos para falar sobre cerveja e produzi-la. Não acreditamos em distinção de gênero quando o assunto é cerveja, mas acreditamos em bons exemplares. Por isso, não produzimos para o paladar feminino, como muitos homens acreditam", completa Tatiana.

Curiosidades sobre a mulher e a cerveja através dos tempos:

• Por volta de 4 mil a.C, mulheres cervejeiras, chamadas de Sabtien, eram consideradas especiais e seus poderes cervejeiros eram tidos como divinos;

• Na Escandinávia, acreditava-se que um soldado que degustasse um bom gole de cerveja produzido por uma Valquíria se tornaria imortal;

• Catarina, esposa de Martinho Lutero, figura central da Reforma Protestante, foi uma das melhores cervejeiras de sua época;

• Na Idade Média, o rei escandinavo Alreck de Hordoland escolheu tornar Geirheld sua rainha, pelo simples fato de a cerveja produzida pela moça ser incrivelmente saborosa.

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