A História de Renée de Vielmond > Artista de berço

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Bolsa de Mulher - Quantos anos de carreira? Fale do início.

Renée de Vielmond - Sou filha de mãe alagoana e pai francês. Meu bisavô paterno era industrial, a família possuía uma fábrica de automóveis no final do século XIX, em Montrouge, nos arredores de Paris e minha avó paterna era atriz e acrobata de uma família circense na França. As irmãs da minha avó Renée, Armandine e Myris, fundaram o Grande Circo Nerino em 1913, três anos depois que chegaram no Brasil. Foi justamente aos cinco meses, que estreei como Menino Jesus no auto de Natal do Circo Nerino. Passei algumas férias de minha infância com a equipe do Circo Nerino. Uma das lembranças mais fortes que guardo dessa época é a de meu tio Roger Avanzi se maquiando em frente ao espelho nos bastidores para se apresentar como o palhaço Picolino. Eu o reencontrei agora, após 37 anos sem vê-lo, interpretando o mordomo Firs em "O jardim das cerejeiras", de Anton Tckecov. Coincidentemente encenei essa peça em 1989, interpretando a personagem Vária. Foi uma emoção muito grande poder rever meu tio Roger, aos 79 anos, trabalhando como ator. Mas, voltando ao meu início: três anos depois de o Grande Circo Nerino baixar a lona, em 1964, fui convidada pelo diretor teatral Antunes Filho para fazer um teste como atriz. Fui aprovada, fiz o curso de interpretação do professor russo Eugênio Kusnet e estreei já como protagonista no filme "Em compasso de espera", com direção do próprio Antunes Filho, aos dezesseis anos de idade. Vivia em São Paulo nessa época. Depois fiz teste para a novela "Meu pedacinho de chão", de Benedito Rui Barbosa, onde interpretava a professora Juliana. Em 1972, fui contratada pela Rede Globo e me mudei para o Rio de Janeiro para cumprir o contrato assinado, encerrando então a primeira fase de minha vida de atriz na cidade de São Paulo, tempo de que sinto muita saudade.

BM - Se você pudesse voltar no tempo, optaria pela carreira artística?

RV - Se eu tivesse tido o conhecimento que tenho hoje com o estudo de História e tivesse podido adivinhar o que seria ser ator nos anos noventa, provavelmente não. Na década de sessenta, alguns jovens de minha geração abandonaram as instituições, desafiaram valores arcaicos. Foram rupturas dramáticas. Eu, por exemplo, preferi sair muito cedo de casa, trabalhar a estudar para garantir minha sobrevivência. Eu tenho certeza de que seria muito infeliz se tivesse cumprido uma carreira acadêmica no contexto daqueles anos sessenta. O que era fundamental era poder sair da casa dos pais ainda na adolescência e "cair na estrada". Pois foi o que fiz. Eu seria atriz, escritora e aceitaria qualquer ofício para garantir minha independência. Eu só não aceitaria ser esposa e dona de casa pois minha geração foi marcada pelas bandeiras onipotentes do feminismo, do marxismo... Fomos uma geração meio kamikaze, nos impusemos algumas missões suicidas e alguns de nós pagaram um alto preço por isto. Nos anos sessenta, nós éramos mais audaciosos como artistas e é esta audácia, inocência (ou ingenuidade, segundo alguns) e destemor que marcava nossas trajetórias de vida, relacionamentos afetivos e trabalho. Nenhum de nós perseguia o dinheiro, a fama, o sucesso, as capas de revista ou a aquisição de maravilhosos eletrodomésticos, como nos dizia o Antunes. Então, a opção por ser artista estava referida a uma maneira de se colocar no mundo: deste ponto de vista , eu faria outra vez sim a opção por me expressar através do ofício de ator, quando o palco era ainda utilizado como veículo de revelações. Mas hoje, eu realmente não tenho certeza se optaria pelo ofício de ator cujo exercício está exigindo uma atitude de conformismo e acomodamento.

BM - Você gosta de escrever? Já escreveu algum roteiro?

RV - Eu passei a minha vida inteira escrevendo...Escrevia de dia, de noite, viajando, nos ônibus, trens, aviões, nos camarins, nas salas de aula.... Eu só não escrevia à máquina: tinha que ser à mão, com tinta e papel. Se não estava escrevendo, estava lendo... Até hoje conservo este prazer táctil em manusear papéis e livros. Meus professores têm que aturar meus trabalhos de fim de semestre escritos à mão. Costumo dizer que não tenho vocação para o ofício de historiador e sim para o de bibliotecária. Passo horas à fio dentro das bibliotecas, das livrarias, sebos, papelarias... Minha casa é um imenso escritório, repleto de livros, agendas, cadernos, fichários, pastas, arquivos....Cada personagem que me aparecia exigia pesquisas, sinopses, recolha de material, fotos, visitas a museus... Enfim, ao longo dos anos fui perdendo esta prática, mas tenho muita coisa escrita: desde dezenas de diários, centenas de cartas e, até, inúmeros contos. Mas nunca me aventurei em escrever roteiros e peças de teatro porque não domino esta técnica apesar de já ter visto centenas e centenas de filmes. O cinema, na verdade, é minha grande paixão desde criança, mais que o teatro e a televisão. Penso, sim, freqüentemente em me passar para trás das câmeras para escrever, dirigir, fazer pesquisas ...Gostaria, por exemplo, de elaborar um documentário sobre o Circo Nerino, com narração do meu tio Roger.

BM - Você considera a fama passageira? Ela é real? O que você aprendeu com o sucesso?

RV - Creio que a fama traz mais desvantagens que vantagens. Somos excessivamente vigiados e controlados. Além desse controle todo, "o mundo" fica muito mais caro pois fantasiam que somos acionistas majoritários da TV Globo. Essa fantasia vem porque nós mesmos projetamos uma imagem que não corresponde ao que somos verdadeiramente. É muito freqüente nós próprios acreditarmos nessas imagens idealizadas que projetamos e neste conto-de-fadas, um mundo de fantasia. Voluntária ou involuntariamente, contribuímos para firmar nas revistas a imagem de que todos os artistas são ricos e bem sucedidos. Se nós próprios acreditamos que o sucesso traz dinheiro e poder, como é que o telespectador não vai construir este tipo de expectativa? Fomos bombardeados com o cinema americano desde a década de 20, com uma propaganda maciça em torno dos ganhos milardários de seus artistas. O sucesso me deseducou e a única lição que retirei desta experiência foi de que não podemos abrir mão de exercer nossa cidadania, custe o que custar. O artista, é, antes de ser artista, um cidadão.

BM - Você pretende voltar para a TV em breve?

RV - Será um recomeço, como tantos outros recomeços. A atriz está preservada, talvez mais falha tecnicamente mas muito mais completa de outro ponto de vista. Se a atriz não der mais conta do recado, posso exercer uma função que exerci no "Programa de Domingo" do Fernando Barbosa Lima: o de apresentadora de um programa. O programa pode ser até educativo, estarei, então, voltando aos primórdios da minha carreira em televisão quando fizemos a primeira novela educativa da televisão brasileira: "Meu pedacinho de chão"(TV Cultura São Paulo), do Benedito Rui Barbosa. Penso também em fazer locução para televisão e cinema.

BM - Você pousou nua para a playboy de 1986. Você teria repetido a dose se fosse convidada?

RV - Faria se fosse outra vez com Marisa Alvarez Lima, em P x B e não para publicassem em revistas. Há dezesseis anos, consegui um contrato fabuloso com a editora Abril, intermediado pelos excelentes jornalistas Alexandre Machado e Carlos Costa, que nos possibilitou fazer um ensaio fotográfico belíssimo. O trabalho foi elaborado com direção de arte de Marisa e sem qualquer interferência da editora Abril no trabalho final. Para exemplificar, das 800 fotos tiradas,14 foram escolhidas por Marisa, que também as paginou. A Abril só tomou conhecimento dessas 14 fotos já paginadas: as outras 786 continuam desconhecidas. Certamente, hoje eu não conseguiria condições tão privilegiadas de trabalho.

BM - A TV massacra o artista?

RV - Qual artista? Depende do grau de expectativa que se carrega. Se um profissional de TV vai trabalhar num canal de TV aberto, numa indústria que não ambiciona o espaço da arte, nem se reconhece como instrumento de responsabilidade social e institucional e que privilegia seus interesses econômicos, não deve esperar que possa desenvolver ali um trabalho que, mobilizando sua capacidade inventiva, priorize a formação de cidadãos. Acredito que algumas dessas emissoras, prestadoras de serviço público e comprometidas que são com o bem-estar social, precisam fazer um mea culpa e debater com a sociedade questões sobre responsabilidade, ética e função social de um veículo de penetração hegemônica, que ocupa um importante espaço social e cultural num país de alto índice de analfabetismo. Neste aspecto, o papel da televisão é crucial. Aliás, é preciso lembrar que a Constituição Brasileira afirma que a programação e a produção das emissoras televisivas, como concessionárias de serviço público, tem como obrigação primeira privilegiar as atividades educativas, artísticas, culturais e informativas.

BM - Você está dando entrada na sua aposentadoria?

RV - Trabalho desde 1967 como autônoma . Em 1970, o Antunes assinou minha primeira carteira profissional. Tenho, portanto, comprovadamente quase 31 anos de trabalho com vínculo trabalhista e, segundo as novas leis previdenciárias do nosso governo neoliberal (que parece considerar o aposentado um parasita social, um "vagabundo"), ainda não posso usufruir de minha aposentadoria ... Por enquanto, estou bancando minha semi-aposentadoria sozinha.