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Quando tudo gira

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Acontece meio de repente. A audição fica estranha, começa um zumbido desagradável no ouvido e uma sensação de que o mundo começou a girar à sua volta. O que parece ser uma simples crise de tontura acaba por se revelar uma grande vertigem, daquelas em que se perde não só o equilíbrio, mas a noção de tudo o que está ao redor. Além desse desconforto, ainda podem vir de brinde náuseas, vômitos e suadeira. É isso o que acontece com quem sofre de labirintopatia, popularmente conhecida como labirintite. Trata-se de uma doença causada por um desequilíbrio na parte interna do ouvido. Apesar de haver tratamento e prevenção, quase sempre ela sempre pega a pessoa de surpresa e acaba limitando a maioria das atividades do dia-a-dia.

Mas por que é que acontecem essas crises? Bem, para explicar a doença, é preciso antes entender quais são as personagens principais dessa história. Os órgãos responsáveis pela nossa audição e equilíbrio - cóclea e vestíbulo, respectivamente -  estão localizadas dentro do ouvido interno. Juntos, eles formam o chamado labirinto. Através de alguns nervos, eles se comunicam com o sistema nervoso central. Qualquer comprometimento no funcionamento desses componentes – ou do caminho do líquido que circula pelo labirinto, a endolinfa -  pode causar desequilíbrio, tontura, diminuição da audição, náuseas, diarréia e os desconfortáveis zumbidos. Dependendo da gravidade dessa alteração, as crises podem durar desde alguns minutos até vários dias. E aí, o que resta é tomar remédio, ficar de cama e esperar a crise passar – isso, claro, até que se descubra a causa das crises, pois ela varia de pessoa para pessoa.

Apesar de ser uma doença mais comum em pessoas a partir dos 50 anos, crianças e jovens também podem sofrer – e muito! – com o problema. Que o diga a jornalista Letícia Maia, que teve a primeira crise aos quinze anos, enquanto assistia TV em casa. "Do nada, comecei a ver tudo girando, girando, girando... Entrei em desespero, porque não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Melhorei só depois de meia hora. Nos dias seguintes, tive várias outras crises, só que acompanhadas por náuseas e vômitos. Somente depois que fui examinada por um otorrinolaringologista é que fui descobrir do que se tratava. Mesmo com medicação, ainda sofri por um bom tempo. Não podia ir à faculdade, sair de casa, nem fazer coisa alguma, a não ser ficar na cama", relembra ela, que teve a doença por nada menos do que dez anos. "As crises eram controladas pelos remédios, mas volta e meia eu era pega desprevenida novamente. Como eu notei que, na maioria das vezes, o motivo era de fundo emocional, passei a tratar da causa do estresse e nunca mais tive uma recaída", comemora.

Causas

O estresse, como citou Letícia, é mesmo uma das causas da doença. Mas atrás dele vem uma extensa lista de problemas que também podem deflagrar as crises: infecções causadas por vírus ou bactérias, uso de medicamentos ototóxicos – como alguns antibióticos e antiinflamatórios -, traumas na cabeça, doenças próprias do ouvido, hipertensão, diabetes. O médico otorrinolaringologista Leonidas Mocellin, da Universidade Federal do Paraná, aponta mais alguns vilões: "As crises também podem ser provocadas pelo aumento da pressão arterial, infecções gerais do organismo, perturbações do fígado e até mesmo alergias", enumera. O colesterol alto é outro que pode ser considerado culpado, porque altera o funcionamento das artérias, diminuindo a quantidade de sangue nas áreas do cérebro e do labirinto, causando as crises.

Pois é, a alimentação também tem culpa no cartório. Como até mesmo nosso ouvido consome muita energia e necessita constantemente de açúcar e oxigênio, qualquer situação que bloqueie o caminho desses elementos também podem provocar as vertigens. Por isso, não é à toa que ficamos tontas quando ficamos muito tempo sem comer algo! Pior do que isso, só mesmo exagerar no consumo de cigarro, álcool, drogas e alimentos excitantes, como chocolate, café e chá. Aí, é vertigem na certa. "Esses estimulantes são grandes provocadores das crises, por isso é melhor evitá-los sempre que possível", recomenda o médico.

Tratamento

Geralmente a labirintopatia é controlada por medicamentos específicos. Há os vasodilatadores, que melhoram a circulação sangüínea, os labirinto-supressores, que atuam diretamente sobre a vertigem e ainda os que agem sobre as náuseas e o mal-estar. No entanto, é preciso ficar de olho, pois as tonturas podem estar sendo deflagradas por uma infecção no ouvido médio, que pode ser grave. "Neste caso, além dos sintomas, é preciso tratar da infecção. Por isso, é muito importante procurar a ajuda de um médico", avisa o Dr. Mocellin. Há, ainda, quem busque ajuda na medicina alternativa, como sessões de acupuntura e homeopatia, como Letícia. "Eles ajudam bastante a controlar os sintomas e a tratar a parte emocional, mas mesmo assim os medicamentos específicos são necessários", comenta ela.

Para evitar a reincidência ou mesmo acabar de vez com as crises, de acordo com o otorrinolaringologista, a melhor saída é melhorar alguns hábitos. Evitar o estresse, adotar alimentação leve e saudável, praticar exercícios físicos regularmente, não fumar e não beber são os principais mandamentos. "Os medicamentos funcionam, mas é preciso mudar permanentemente o estilo de vida", finaliza Dr. Mocellin.