Lúpus: um mal feminino - Uma dorzinha de cabeça aqui, uma febre ali, cansaço. Parece gripe, mas pode se

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Quem nunca sentiu dores no corpo, cansaço, febre e garantiu ao chefe que tudo não passava de um simples resfriadinho? Mas esses sintomas, tão comuns no inverno e nessa correria do dia-a-dia, também podem ser sinal de algo muito mais grave: o lúpus, uma doença ainda desconhecida e facilmente confundida, que age sorrateiramente e tem as mulheres como alvo preferido.

O Lúpus Erimatoso Sistêmico, também conhecido como LES, é uma doença reumática que provoca um distúrbio no sistema imunológico, podendo destruir qualquer tecido ou órgão. A pessoa afetada começa a produzir anticorpos contra as suas células, tornando-se alérgica a si mesma. Apesar de atingir qualquer indivíduo, independente de raça, sexo ou idade, são as mulheres as principais vítimas desse mal, em especial aquelas entre 15 a 40 anos. Quanto mais jovem a paciente, maior a gravidade do problema. "Não se pode afirmar que seja uma doença feminina. Mas a proporção está em torno de 13 mulheres para um homem. Teorias comprovam que os hormônios femininos são uma das causas do aparecimento de lúpus", diz a reumatologista Alessandra Cobra.

A doença não é contagiosa, muito menos infecciosa, e também não possui caráter hereditário. No entanto, se um membro da família apresentar o LES, a probabilidade de que um parente a desenvolva é grande. Os sintomas são vários e algumas pessoas, mesmo apresentando somente um ou dois, já caracterizam a presença da doença. Começa com uma leve febre, cansaço e anemia, até dores nas articulações e manchas na pele, sobretudo no nariz e nas bochechas. "A pele em muitos casos é bastante afetada. Se formam manchas avermelhadas geralmente nas regiões da face. Porém, essas manchas podem aparecer em qualquer área do corpo, principalmente naquelas onde há forte exposição solar. Já diagnostiquei lúpus em uma menina de apenas dez anos pelas manchas em volta de seu umbigo, pois ela usava muito miniblusa", conta o reumatologista Adalberto Arruda.

Apesar dos sintomas facilmente identificáveis, é comum o erro no diagnóstico. Para o reumatologista é mais fácil detectar a doença, mas aos outros especialistas trata-se de um grande desafio. Normalmente, o paciente vai a uma série de médicos e faz diversos exames até ser constatado se existe realmente a presença do lúpus. "Estava trabalhando na UTI da Santa Casa de Guarantinguetá, em São Paulo, quando uma das enfermeiras foi ao pronto-socorro. Após alguns minutos de atendimento, ela voltou com a perna engessada, sem ter sofrido nenhum trauma. Ela apenas sentia uma tendinite sem causa aparente, além de apresentar manchas na pele. Sugeri então que fizesse os exames para diagnosticar o lúpus. E assim como previa, o resultado deu positivo. Fica claro o perigo em consultar um ortopedista quando não há uma história de trauma", alerta Dr. Adalberto. Um caso parecido de erro no diagnóstico aconteceu com a aposentada Isabel Sueli Ferreira. Apresentando anemia, ela foi se consultar com o médico que, inicialmente, suspeitou de leucemia. "Não melhorava nunca e acabava sempre voltando ao consultório. Sentia muitas dores nas articulações. Somente após diversos exames e com a presença de um reumatologista foi possível confirmar que eu tinha lúpus", lembra Isabel.

Depois dos exames que identificam a doença, inicia-se um tratamento com base em medicamentos específicos, que envolve o uso de corticoesteróides, antiinflamatórios não hormonais e drogas imunossupressoras. Porém, a medicação deve ser receitada de forma individualizada e baseada nos relatórios clínicos e laboratoriais de cada paciente. A falta de acompanhamento médico pode ser bastante perigosa ocasionando inclusive, em alguns casos, a morte. "O abandono do tratamento é uma das principais causas de morte por lúpus, antecedida por um forte estresse e um comprometimento de órgãos vitais. A presença do médico é fundamental para evitar o pior", ressalta o Dr. Adalberto. Mas assim como a presença do reumatologista é indispensável, seguir à risca todas as suas orientações durante todo o tratamento é fundamental. "Uma paciente de apenas 23 anos chegou ao consultório com dores articulares nas mãos, pés e joelhos, além de manchas na face. O diagnóstico constatou lúpus. Mas, mesmo orientada, a paciente se recusou a evitar a exposição ao sol. Rapidamente iniciou um quadro de insuficiência renal aguda, foi internada de emergência e morreu em uma semana", comenta a Dra. Alessandra.

Apesar dos diversos estudos, ainda não se descobriu uma cura definitiva para o lúpus. O atraso nas pesquisas se deve ao desconhecimento das causas da doença. Resta ao paciente seguir o tratamento proposto pelo médico para que o lúpus não se manifeste. "Somente aos 40 anos fui descobrir que tinha lúpus. Isso afetou demais a minha vida naquele momento. Antes mal tinha ouvido falar da doença e em pouco tempo tive que aprender tudo sobre ela. Prestava atenção no que os médicos me diziam e tentava imaginar uma solução. Foi um golpe tão duro que fiquei deprimida. Não me interessava mais por nada. As dores nas articulações eram insuportáveis e eu recorri até mesmo a tratamento psiquiátrico", relembra Isabel Sueli. E as dores só acabaram após 10 anos de tratamento intensivo com base em corticóides e sessões constantes com o reumatologista. "No final, a solução é aprender a conviver com a doença, pois a vida continua", completa Isabel.

Agradecimentos:

Dr. Adalberto Arruda – Reumatologista

Tel. (12) 3133-6833

Site: www.reumatologia.cjb.net

Dra. Alessandra Cobra - Reumatologista

Tel. (11) 3105-9144

Site: www.reumatismo.med.br