Orgulho de ser gorda: elas NÃO querem que você as ache bonitas, a luta é muito maior

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Além das pressões sociais e culturais, que valorizam os corpos magros como se fossem sinônimo de perfeição, e dos mercados de moda e beleza, que evidenciam e reforçam esses padrões, as mulheres gordas sofrem pressões vindas de diversas outras formas, até mesmo de médicos e do mercado de trabalho que, não raro, as desqualificam por causa do peso. Todas essas atitudes têm um nome: gordofobia.

O que é gordofobia?

A ativista Cida Neves, do Ouse ser você, projeto focado na aceitação e positividade corporal, explica que o termo gordofobia é novo, mas o preconceito contra gordos é algo que existe há bastante tempo. "Gordofobia significa preconceito contra gordos, achar que um ser humano vale menos apenas por ser gordo, olhar para alguém e automaticamente ter um diagnóstico formado", explica.

Segundo ela, a gordofobia acontece sempre que as pessoas olham um gordo e acham que ele é preguiçoso, desajeitado, sujo, oleoso, burro, que não tem agilidade, que come demais, que não tem controle e nem força de vontade, carente, um cidadão sub-humano e digno de pena e de caridade ou de desprezo. "E isso se reflete na vida amorosa, profissional e em muitos outros aspectos que aumentam de acordo com o tamanho da pessoa", diz.

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No dia a dia, os desafios encarados pelas pessoas gordas também são muitos: se apertar em transportes públicos, viver sempre preocupado em caber em cadeiras ou torcer para que elas não quebrem, não encontrar roupas baratas em lojas de fácil acesso e não ter representatividade na mídia, onde não há personagens gordos que não sejam caricatos ou reforcem estereótipos negativos. "Tudo é feito para pessoas que pesam no máximo de 70 a 100kg. Um gordo que pesa mais de 100kg não pode nem alugar uma bicicleta, pois ultrapassa o peso máximo que a maioria das bicicletas suportam", afirma.

Por essas e outras, muitas pessoas gordas desenvolvem síndrome do pânico e depressão, causadas pelos maus tratos que sofrem em todas as fases da vida, desde o colégio até o trabalho, até mesmo na rua. "Muitos têm fobia de comer em público, desenvolvem transtornos de ansiedade, não querem sair de casa pelos maus tratos na rua", conta.

Movimentos contra a gordofobia

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Diante de todo esse quadro, começaram a surgir movimentos e projetos com foco não apenas no combate ao preconceito, mas também no empoderamento feminino, para que as mulheres conheçam melhor seus corpos e comecem a aceitá-los e a valorizá-los cada vez mais.

Mas muita gente ainda não entende bem do que se trata, pois, segundo ela, a maior parte da sociedade é orientada apenas para ver a aparência. "As pessoas acabam achando que o movimento antigordofobia são as gordas pedindo para que as achem bonitas. Eu não me importo se me acham bonita. Eu quero ter oportunidades para mostrar o meu valor, ter o direito de ir e vir, vestir, ter atendimento médico justo, trabalhar, ir a uma festa, e fazer as coisas que eu quero sem ser atacada ou tratada como uma doença ambulante", explica.

Na prática, ela diz acreditar no poder do exemplo e da representatividade. "Nossa militância tem que ser no dia a dia, nas coisas que fazemos no cotidiano e no nosso exemplo. No projeto, há fotografia, textos e imagens inspiracionais, para fortalecer a autoestima das mulheres e desafiá-las a se amarem como elas são. Também participo de blogs e coloco fotos quase diariamente nas redes sociais para mostrar que a gorda vive, trabalha, ri, é amiga, esposa, mãe e é gente. Precisamos nos fortalecer e mostrar que estamos aqui resistindo e vivendo a vida plenamente", diz.

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Páginas sobre gordofobia

Assim como Cida, muitas outras mulheres estão cada vez mais utilizando as redes sociais para lutar contra a gordofobia. Há diversas páginas, grupos e blogs com informações para quem quer entender melhor sobre o tema. "No mundo plus size, no movimento antigordofobia e no movimento feminista, conheci mulheres maravilhosas e fortes que querem fazer a diferença e, desde então, minha vontade de espalhar essa mensagem de amor e aceitação só aumenta", diz.

A ativista Cintia Vanessão, do projeto Gorda Não é Uma Palavra Ruim, decidiu começar a escrever sobre o tema depois de uma conversa com uma amiga, quando ainda havia poucas páginas e blogs falando sobre isso. "A maioria das informações eram em inglês, e a gente estava descobrindo o que significava a até então desconhecida palavra gordofobia. Como toda a minha aceitação se deu por conta de conversas com amigas gordas, decidi contar minha vivência, como se estivesse conversando com essas amigas. O propósito da página e do blog é justamente fomentar a autoaceitação das mulheres gordas", conta.

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Segundo ela, os movimentos contra a gordofobia são extremamente importantes, pois contribuem para que a vivência das mulheres gordas não seja apagada. "Nós começamos a ter voz! Muitas mulheres após se aceitarem conseguiram superar relacionamentos abusivos, sejam eles com a família, com companheiros ou companheiras que as menosprezavam por causa do peso", revela.

Kalli Fonseca, do Beleza Sem Tamanho, conheceu o movimento "Fat Pride" (em português "Orgulho Gordo") há quase 15 anos e, desde então, começou a se engajar participando de fóruns e discussões, até que criou o próprio blog. "Senti necessidade de reunir em um espaço tudo que eu penso a respeito. Estamos lutando para caber neste mundo que ainda tende a nos apertar (de forma estrutural, em muitos espaços não nos cabe, literalmente) e nos excluir de oportunidades por causa do nosso corpo. O objetivo é que o mundo em geral entenda que ser gordo não deveria ser motivo de preconceito. E também focamos em gerar mais acessibilidade, incluindo o gordo na sociedade, e no empoderamento para pessoas gordas, que ainda precisam fortalecer a própria autoestima para conseguir enfrentar a sociedade todos os dias", explica.

Obesidade x saúde

Um ponto importante destacado por todas elas é o fato de muitas vezes o preconceito contra gordos ser disfarçado de preocupação com a saúde. "Por trás de alguns fatos científicos que associam a obesidade com o aumento da probabilidade de desenvolver alguns tipos de doenças (às quais os magros não são imunes), muitas corporações lucram imensamente, enquanto pessoas são discriminadas apenas pela quantidade de gordura em seus corpos, reforçando estereótipos negativos e assim atrasando a vida de quem poderia estar contribuindo ativamente para a sociedade", explica Cida.

Para Cintia, o fator saúde também é o mais complicado. "As pessoas têm costume de invalidar a nossa luta dizendo que estamos doentes, que não é saudável ser gorda. E nós estamos aqui pra provar que, além de ser possível ser gorda e saudável, a nossa saúde não é da conta de ninguém. Mesmo que estejamos doentes, não merecemos ser policiadas o tempo todo pela nossa aparência", explica.

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Como combater a gordofobia no dia a dia

- Ao invés de criticar um movimento ou de julgar a partir de suas perspectivas individuais, ouça e esteja sempre aberta a aprender com quem vive isso na pele. Se alguém diz que sofreu preconceito, tente entender o que houve e não minimize os fatos.

- Pare de relacionar gordura a comida. "Uma coisa nem sempre necessariamente está ligada à outra", diz Cintia.

- Exclua do seu vocabulário termos como "fazer gordice", geralmente associado a compulsão alimentar, a alimentos doces e/ou gordurosos, ou a pessoas desajeitadas. "Basta procurar um pouquinho para ver que esses são estereótipos negativos que não são verdadeiros. Será que só os gordos comem comidas calóricas e gordurosas?", questiona Cida.

- Se você é magra, não comente que está gorda ou que não quer engordar. "Como se a pior coisa que poderia acontecer para essas pessoas fosse ter um corpo igual ao meu. Isso é extremamente ofensivo", diz Cintia.

- Pare de criticar alguém por causa do peso. "Vou colocar uma reflexão para vocês. Digamos que a obesidade seja uma doença grave, e que uma pessoa gorda irá realmente morrer a qualquer momento; atacar e xingar essa pessoa realmente irá ajudá-la? Pense duas vezes antes de comentar sobre o peso de alguém, ou sobre o que essa pessoa está comendo, mesmo que seja um membro da sua família ou pessoa próxima, pois essa pessoa provavelmente já está ciente de qualquer coisa que você vá dizer em relação a isso, e está tentando apenas seguir sua vida da melhor forma possível", explica Cida.

- Cobre novas posturas de lojas e empresas. Use as redes sociais como aliadas. "Basta pedir e fazer barulho que elas vão atender. Não adianta apenas ficar pensando: 'Poxa, que chato, não tem mulheres como eu. Façam barulho! Toda forma de expressão é válida e quanto mais exemplos tivermos, mais os estereótipos são quebrados", afirma Cida

- Eduque as crianças para que não cresçam com preconceitos. "As crianças precisam ser ensinadas que todas as pessoas são únicas e nenhum corpo é melhor que o outro", diz Kalli.

- Fuja dos padrões. Cida explica que o mundo da moda sempre impõe padrões fantasiosos, criando ideais. Da mesma forma que a maioria das mulheres magras não vestem 34 como as modelos, a maioria das mulheres gordas não vestem 42/44 como as modelos plus size.

- Não se compare. "Construa uma autoestima saudável, sem comparações, para que a gente se fortaleça e fortaleça nossos ideais sem necessitar de aprovação externa. Existem muitas blogueiras de moda plus size lindas e com diversos corpos diferentes para se inspirar", diz Cida.

- Pratique a autoaceitação. "Não somos nosso corpo, somos a consciência e a força criativa que move esse corpo; somos a nossa alma, a nossa essência. Se trocássemos de corpo, ainda continuaríamos sendo nós mesmas, não é verdade? Isso é muito mais importante do que qualquer numero na balança, qualquer opinião, qualquer xingamento. Isso é o que tem que nos mover: os nossos ideais, valores e objetivos, não importando o formato e nem tamanho da nossa embalagem. Pensando assim e focando no que amamos e valorizamos, conseguimos ir muito mais longe", finaliza.