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Mariana Ferrão tem VBCA (parto normal após cesárea): há risco? Toda mulher pode ter?

"Perdi a conta de quantas vezes me disseram que eu não poderia ter um parto normal. ‘O primeiro foi normal?’ Não, foi cesárea. ‘Ah, então o segundo também vai ser’". Foi assim que Mariana Ferrão, apresentadora do programa Bem-Estar, da rede Globo, começou seu desabafona internet sobre o nascimento do segundo filho. A jornalista deu à luz João, na última quinta-feira (25), e conseguiu o seu sonhado parto normal depois de cesárea, rompendo com a cultura de cesárea do Brasil.

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Cesárea contra a vontade de mãe

Enquanto a OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda que o número de cesáreas não ultrapasse 15% dos nascimentos, no Brasil, essa porcentagem chega a ser cinco vezes maior. Na rede pública, de acordo com levantamento da pesquisa "Nascer no Brasil", realizada pela FioCruz, 52% dos nascimentos é por via cirúrgica. Na rede privada, os índices são ainda mais assustadores e chegam aos 88%.

Desabafo de Mariana Ferrão

Romper com essa cultura que indica cesáreas sem necessidade é uma árdua luta enfrentada pelas mães que querem ter o direito de ter parto normal. Mas, assim como Wanessa Camargo, Mariana Ferrão conseguiu. "No final, cansei de ser sincera. Já estava falando para todo mundo que o Miguel [seu primeiro filho] tinha nascido de parto normal também. [Era] A única forma de as pessoas concordarem que o João ia ser assim e pararem de dar palpite sobre meu parto", escreveu.

A apresentadora, além de desabafar sobre as dificuldades para viver essa experiência, mostrou os motivos da sua escolha. Dentre elas, Mariana destacou a possibilidade de João poder escolher a hora de vir ao mundo, a recuperação mais rápida e menos sofrida no pós-parto e a chance de entrar em contato com seu corpo, seus limites e "algo primitivo, feminino". A jornalista ainda lembrou que o corte da cesárea chegou a abrir após seu primeiro parto, e que ela não queria passar por essa experiência novamente.

Leia o texto completo postado pela apresentadora:

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Perdi a conta de quantas vezes me disseram que eu não poderia ter um parto normal...." O primeiro foi normal?" Não, foi cesárea. "Ah, então o segundo também vai ser". " Por que vc não marca logo?". Quanta gente falando a mesma coisa, quantos médicos que foram ao programa e me disseram a mesma coisa! No final, cansei de ser sincera. Já tava falando pra todo mundo que o Miguel tinha nascido de parto normal tb. A única forma das pessoas concordarem que o João ia ser assim e pararem de dar palpite sobre meu parto. Por que eu queria tanto um parto normal? Pra viver a experiência, para o João poder escolher a hora de vir ao mundo, pra estar mais pronto pra esta dura experiência da vida, pra ter uma recuperação mais rápida e poder amamentar sem sentir dor no corte, pra me sentir forte, pra poder pegar o Miguel no colo logo, pra entender o poder transformador do parto, pra entrar em contato com algo primitivo, feminino, pra vencer a dor, pra conhecer a dor, pra descobrir o meu corpo, os meus limites, pra experimentar, pra ter uma lembrança diferente da primeira, pra o meu corte da cesárea não abrir de novo, pra eu sentir menos dor no pós-parto, pra poder dizer que consegui, pra ser lindo como foi! As razões são tantas e muitas ainda estão aqui dentro um pouco indecifráveis. Mas também por que importam? Era um sonho. Me preparei pra ele. Me conectei com meu corpo, com meu filho. E tanta gente se conectou comigo neste sonho: nada teria sido possível sem o apoio da minha médica, Dra. Diana Vanni, da minha fisioterapeuta e doula, Mirca Ocanhas, do meu marido, André. Aqui vai também um agradecimento especial pra uma amiga virtual e tão íntima, Bia Câmara, e pra uma amiga bem real de tantos anos, Vera T. Francisco. Este arco-íris de hj na janela do quarto é minha gratidão em forma de luz!

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"Perdi a conta de quantas vezes me disseram que eu não poderia ter um parto normal... ‘O primeiro foi normal?’ Não, foi cesárea. ‘Ah, então o segundo também vai ser.’ ‘Por que você não marca logo?’ Quanta gente falando a mesma coisa, quantos médicos que foram ao programa e me disseram a mesma coisa! No final, cansei de ser sincera. Já estava falando pra todo mundo que o Miguel tinha nascido de parto normal tb. A única forma das pessoas concordarem que o João ia ser assim e pararem de dar palpite sobre meu parto.

Por que eu queria tanto um parto normal? Pra viver a experiência, para o João poder escolher a hora de vir ao mundo, pra estar mais pronto pra esta dura experiência da vida, pra ter uma recuperação mais rápida e poder amamentar sem sentir dor no corte, pra me sentir forte, pra poder pegar o Miguel no colo logo, pra entender o poder transformador do parto, pra entrar em contato com algo primitivo, feminino, pra vencer a dor, pra conhecer a dor, pra descobrir o meu corpo, os meus limites, pra experimentar, pra ter uma lembrança diferente da primeira, pra o meu corte da cesárea não abrir de novo, pra eu sentir menos dor no pós-parto, pra poder dizer que consegui, pra ser lindo como foi!

As razões são tantas e muitas ainda estão aqui dentro um pouco indecifráveis. Mas também por que importam? Era um sonho. Me preparei pra ele. Me conectei com meu corpo, com meu filho. E tanta gente se conectou comigo neste sonho: nada teria sido possível sem o apoio da minha médica, Dra. Diana Vanni, da minha fisioterapeuta e doula, Mirca Ocanhas, do meu marido, André. Aqui vai também um agradecimento especial pra uma amiga virtual e tão íntima, Bia Câmara, e pra uma amiga bem real de tantos anos, Vera T. Francisco. Este arco-íris de hj na janela do quarto é minha gratidão em forma de luz!"

Parto normal depois de cesárea

bebe parto normal
Maria Sbytova / Shutterstock

Chamado de VBCA (vaginal birth after cesarean, em inglês) ou PNAC (parto normal após cesárea), o parto via vaginal depois do procedimento cirúrgico é indicado pela OMS porque, embora apresente riscos, eles ainda são menores do que aqueles de submeter a mulher a uma segunda cirurgia.

De acordo com Melania Amorim, ginecologista obstetra pós-doutorada e membro da Febrasgo (Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia), o cenário ideal é não submeter a mulher a uma cesárea, que, embora salve vidas, é feita de forma indiscriminada no Brasil e, na grande maioria dos casos, sem necessidade.

No entanto, depois que ela for realizada, no nascimento do segundo filho, o ideal é que médico e paciente optem pelo parto normal (a menos que ocorra algum imprevisto na hora do nascimento que indique a necessidade absoluta de cesariana). Isto porque, embora exista o risco de ruptura uterina, ele é baixo (menos de 0,05%) se comparado os riscos que uma cirurgia apresenta. Entre eles, a especialista lista os imediatos (insuficiência respiratório neonatal, hemorragia materna, lesões na bexiga e infecções) e tardios (dores pélvicas, placenta prévia e acretismo placentário).

*Matéria publicada em 29/02/2016