Episiotomia: ela é necessária? Profissionais explicam

episiotomia 2 e1394547550283
episiotomia-2

Beatriz Helena

Do Bolsa de Bebê

Corte cirúrgico feito na vagina - na região denominada de períneo - durante o parto vaginal para ampliar o canal de parto, a episiotomia é uma prática que, embora ainda usada na maioria dos hospitais, não apresenta indicações reais, tampouco benefícios para as mulheres. Quem defende a afirmação são os profissionais humanizados, que levam em consideração a medicina baseada em evidências.

Leia também:

Descubra o períneo: importante para a saúde, sexo e parto

Contrato entre mãe e bebê durante primeira hora de vida é essencial

Mulher que já fez cesárea pode ter parto normal?

O que é a episiotomia?

"A episiotomia é um corte feito com uma tesoura ou com um bisturi, com anestesia ou não, na vagina da mulher bem na hora em que a cabeça do bebê está passando e é feita com o pretexto de aumentar a passagem vaginal e evitar lacerações espontâneas", define a doula Adéle Valarini, de Brasília.

Quando ela surgiu?

Segundo artigo publicado pela obstetra Melania Amorim, pós-doutorada em Ginecologia e Obstetrícia na Unicamp, em Saúde Reprodutiva na Organização Mundial de Saúde (OMS), em Genebra, e referência em atendimento humanizado, a episiotomia passou a ser praticada quando o nascimento deixou de ser um processo natural e passou a ser patológico, ou seja, passou a requerer intervenções médicas.

O procedimento se popularizou na década de 1920, após a publicação de um tratado de obstetrícia que recomendava que o corte fosse feito em todos os casos para diminuir o tempo do período expulsivo. "Evidentemente, essa recomendação não se baseou em nenhum estudo [...] e apenas refletia o paradigma vigente na época de que o corpo feminino seria essencialmente defectivo e que intervenções seriam necessárias para que o parto pudesse se realizar de forma ‘segura’, sob obrigatórios cuidados médicos", escreve a obstetra.

Desde então a episiotomia vem sendo praticada como um método para preservar o assoalho e a musculatura pélvica, bem como a anatomia vaginal. Porém, profissionais afirmam que ela não só não previne as lacerações, como pode ser ainda pior. "Pesquisas recentes demonstram que o pique não previne laceração porque ele é uma laceração em si. Além disso, as lacerações naturais, quando ocorrem no parto vaginal, são, em geral, menores que o corte proposital", explica Adéle.

Riscos da episiotomia

[[{"fid":"","view_mode":"default","fields":{"format":"default","field_file_image_description[und][0][value]":""},"type":"media","link_text":null,"attributes":{}}]]Episiotomia sem autorização da mulher é violência obstétrica (Crédito: Thinkstock)

Segundo Drª. Melania, além de não existir evidências de que o procedimento traz benefícios à parturiente, ainda existe a possibilidade de dores, edemas, infecções, hematomas e dores durante o ato sexual.

"A episiotomia pode ser uma agressão e mutilação vaginal quando praticada sem o consentimento da mãe, além de causar dor, demorar a cicatrizar, causar queloide, dessensibilização ou hipersenbilização, requerer mais pontos que uma laceração natural e estourar com mais facilidade", explica a doula. Segundo ela, enquanto a laceração natural acontece nas dobrinhas da vagina, o corte e os pontos são dados em uma região lisa do períneo, tendo como consequência maiores chances de estourar durante os movimentos.

Indicação real

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o índice de episiotomias realizadas em casos específicos deve ser inferior a 10%. No Brasil, os dados são imprecisos pois, considerado um procedimento de rotina e banalizado, nem sempre aparece nos prontuários médicos. Estima-se que a prática seja realizada em até 95% dos partos vaginais hospitalares.

"É importante lembrar que, como todo procedimento cirúrgico, a episiotomia só deveria ser realizada com o consentimento pós-informação da parturiente", alerta a obstetra, que ainda observa que quando realizada sem indicação, vira uma mutilação genital feminina que pode trazer riscos à saúde da mulher, além de ser considerada uma violência obstétrica.

Além da preservação do assoalho pélvico, as justificativas para a prática também são as de evitar incontinência fecal ou urinária. Porém, Adéle afirma que o problema não tem relação com o parto ou com a laceração, mas sim com o peso da gestação. "Em cesáreas ou partos com episiotomia o problema também pode aparecer, pois é consequência do afrouxamento do assoalho pélvico, musculatura que segura os órgãos internos, e não da laceração natural", explica.

Ainda segundo artigo publicado pela obstetra, "os autores concluíram que a episiotomia não apresenta quaisquer benefícios, associando-se a danos consideráveis como dor, maior necessidade de analgésicos e lacerações perineais graves. Na ausência de benefícios e com um potencial para malefícios, o procedimento deveria ser abandonado".

Laceração natural

Na ausência do pique pode ocorrer a laceração natural que, segundo Adéle, depende da posição em que a mãe está parindo, bem como da intensidade da força que faz no período expulsivo e da velocidade que o bebê sai. "Por isso no parto humanizado as mulheres devem ser deixadas como se sentirem a vontade porque isso diminui as chances da laceração acontecer", comenta.