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Como criança reage ao saber que pai agora é mulher: veja vídeo e opinião de especialista

Nas últimas semanas, um vídeo ganhou destaque na web. Nele, uma menina descobre que seu pai está passando por uma transição para se identificar como uma mulher trans e, diferentemente da reação que muitos adultos teriam, ela age com naturalidade e dá uma grande lição de amor e respeito.

Mas, é claro que o registro pode fazer com que algumas dúvidas surjam – e elas são naturais desde que respaldadas pelo respeito. Qual é o impacto dessas mudanças na formação de um indivíduo? Como as novas configurações familiares afetam as crianças? Por que elas lidam com essas questões com muito mais naturalidade do que os adultos? Segundo a psicopedagoga Maíra Scombatti, da clínica Casa Curumim, em São Paulo, as respostas estão na internalização do preconceito, que ainda é pequena na infância, e nos exemplos familiares.

Entenda o caso

A família Ellis, da Pensilvânia, Estados Unidos, é composta por quatro membros: a mãe, Shalee, o pai, Landon, e as duas filhas, Laysa, de 6 anos e Lexy, de 3.

Recentemente, Landon passou a se identificar como mulher. Mas, quando Shalee, a mãe, contou a novidade em seu Facebook, foi muito questionada sobre a reação da filha mais velha perante a nova configuração familiar.

Para responder, a mãe publicou um vídeo de uma conversa que as duas tiveram quando o assunto foi abordado pela primeira vez na família.

Durante a conversa (em inglês), Layla se mostra curiosa para entender a mudança de seu pai, que agora é mulher e adotou o nome de Mallory. "Estou feliz como menina e vou continuar como menina. Mas, o papai não está feliz sendo um menino e, por isso, nós decidimos ajudá-lo a se tornar a pessoa que o seu cérebro e o seu coração dizem que ele realmente é", explica a mãe, que ainda pergunta como a filha se sente com isso.

Layla pergunta se agora o papai é "ela". A mãe diz que, sim. Então, a menina responde sem hesitar: "Papai, eu te amo muito mesmo você sendo ela agora. Eu ainda te amo".

Em entrevista ao site americano ABC News, Mallory, a mulher-trans, disse que conhecidos da família ainda não sabiam da transição e, por isso, quando sua companheira divulgou o vídeo, ficou muito feliz ao ver como as pessoas reagiram.

O casal permanece junto e, em publicações no Instagram, Shalee diz que o amor não mudou, mas que agora pode, finalmente, ver sua companheira feliz como ela realmente é. "Apenas duas mulheres se amando. Não é grande coisa", escreveu em uma das fotos em que aparece ao lado de Mallory.

Impacto para a criança

No vídeo, Layla reage de forma muito positiva quando sua mãe questiona sobre seus sentimentos agora que seu pai é uma mulher. Para a psicopedagoga, isso acontece porque as crianças ainda viveram pouco o preconceito, ele não está enraizado nelas, diferente dos adultos que, muitas vezes, ao se deparar com uma situação nova, olham com uma carga preconceituosa muito maior, já que ao longo da vida absorveram esses valores.

Mas, mesmo respondendo de forma positiva, há um impacto na vida dessa criança. "Toda transformação, independente de sua origem, afeta a criança", reforça Maíra. No entanto, o que determina se o resultado vai ser positivo ou não é a forma como isso é apresentado pela família para a criança. "Se a situação estiver confusa ou mal resolvida para os pais, isso vai ser passado para o filho. Mas, se a família já lida bem com a questão, ele também vai lidar. E por que isso? Porque para a criança interessa a presença, o cuidado, o carinho, o tempo em que eles passam juntos. Se isso não muda ou só melhora, então, muito provavelmente, vai ficar tudo bem", esclarece.

A especialista, no entanto, alerta para o preparo da criança para lidar com as questões externas – e nesse caso não se inclui apenas casos de famílias em que um dos membros passa a se identificar com outro gênero, mas todas as situações de mudança que causam qualquer estranhamento. "É papel da família preparar a criança com muita sustentação e segurança para que ela enfrente o grande desafio de lidar com as outras pessoas, sejam familiares mais distantes ou colegas da escola", orienta.

A alternativa para garantir estabilidade é possibilitar sempre uma relação e um espaço de confiança para que a criança ou o adolescente possa falar. "Pode estar tudo bem em casa e, depois de um questionamento externo, essa criança se ver confusa de novo. Então, ela precisa ter um espaço para levar essas dúvidas e as emoções oriundas dela", explica Maíra.

Como explicar para as crianças os novos arranjos familiares?

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Lagartija de colores / Shutterstock

Respeito

Diversas formações familiares sempre existiram. No entanto, agora existe maior visibilidade sobre elas. Por isso, é importante que os cuidadores estejam sempre preparados para lidar com perguntas. Para isso, a psicopedagoga afirma que é essencial tratar a questão com respeito à diversidade. "Quando a gente ensina o respeito ao diferente, não estamos negando nossos valores ou mudando de opinião, estamos apenas dizendo que aquele núcleo familiar tem valores diferentes do meu e tudo bem ser assim. É importante para a criança ter a clareza de que ela pode respeitar e achar bonito outro tipo de relação, mas que não precisa viver aquilo se não tiver vontade - seja esse um relacionamento hétero ou homossexual", reforça.

Naturalidade 

A especialista ainda recomenda que as perguntas não sejam antecipadas e que, ao aparecerem, sejam tratadas com naturalidade. "Antes de a criança trazer o questionamento, não tem porque responder. Mas, quando ele chegar, é preciso responder de forma respeitosa e clara e, quando não souber a resposta, ser honesto e dizer: 'Não sei. Talvez a mamãe/papai precise pensar mais sobre isso. Vamos pesquisar juntos? Conversar com outras pessoas para ver o que elas acham?'", exemplifica.

Olho no olho

Mas, diferente do que acontece no vídeo, o ideal é que esse momento de acolhimento das dúvidas seja sempre uma conversa presencial, onde todos possam se olhar. "Não me surpreende a naturalidade com que a menina reage, porque ela apenas mostra o que está sentindo na hora. O que me incomodou foi a forma como a conversa foi estabelecida, sem que mãe e filha pudessem se olhar, além da exposição da criança com a divulgação do vídeo, que em outros casos pode ser prejudicial", defende Maíra.

Isso influencia as escolhas da criança?

Embora essa possa ser uma dúvida recorrente, a resposta da especialista é categórica: não. Conviver com famílias com valores e arranjos diferentes ensina apenas que o mundo é heterogêneo. Para a psicopedagoga, mais uma vez isso está relacionado à relação que a família estabelece com a criança e independe de identificação de gênero, orientação sexual ou qualquer outra característica. "A criança vai crescer sendo impactada pelo clima que existe na casa. Se em uma família heterossexual o clima é pesado e violento, essa criança vai ter que conviver com conflitos internos. A mesma coisa acontece com uma família trans, por exemplo. Ser família é ter desafios independente da formatação. Mas, se a criança se sente cuidada, respeitada, protegida e encontra espaço para expressar suas dúvidas, angústias e alegrias, então ela vai se desenvolver como sente necessidade, bem e feliz", finaliza.

Para aprender ainda mais:Filho de duas mães da resposta INCRÍVEL no Altas Horas