Se sujar faz bem

A criança constrói o conhecimento por meio do contato com o ambiente. Ela aprende manuseando. Vai descobrindo novos sabores e aromas, conhecendo cores e texturas diversas. Quando é permitido experimentar, a criança estabelece um vínculo positivo com a aprendizagem porque não terá medo de perguntar, de duvidar, de buscar soluções para problemas. O vínculo positivo está diretamente ligado à construção da autonomia, já que a criança é capaz de estabelecer estratégias próprias para dar respostas a situações novas, utilizando as ferramentas que já possui. A cada conquista, incorpora os conhecimentos adquiridos ao seu repertório para então vencer novos desafios.

Na prática, estamos falando que se sujar faz bem, como ouvimos dizer na campanha publicitária do famoso sabão em pó. No sentindo de permitir que os pequenos investiguem e manipulem o ambiente e tudo que faz parte dele, é fundamental o apoio e a supervisão do adulto durante a segunda infância (dois a seis anos), fase onde a autonomia está se estabelecendo e a confiança desenvolvida na primeira infância (zero a dois anos) está sendo fortalecida. Lógico que deve haver bom senso. Brincar com a caixa de costura não pode e pronto.

Por exemplo, antes de questionar o uniforme i-mun-do do filhote na saída da escola, procure saber como foi a brincadeira ou atividade do dia. Elogie a produção artística antes e oriente os cuidados com o vestuário depois

Quando a criança manifesta o desejo de comer sozinha deve ser permitido que assim o faça, por maior que seja o trabalho. Se a mãe não deixa o filho alimentar-se afirmando que ele vai se sujar, está dizendo, para ele, que ele não é capaz de executar tal tarefa. A criança duvida de si mesma porque, em primeiro lugar, duvidaram dela. Sua auto-estima fica enfraquecida, pois começa a não ver-se capaz de ser autônoma.

É característica da fase a busca de aprovação. Precisa de elogios mais do que nunca, por isso, se o comportamento "correto" é muito imposto a auto-estima é minada. Por exemplo, antes de questionar o uniforme i-mun-do do filhote na saída da escola, procure saber como foi a brincadeira ou atividade do dia. Elogie a produção artística antes e oriente os cuidados com o vestuário depois. Apenas oriente, não brigue. Lembre-se que o uniforme existe, também, para permitir certa sujeira sem culpa.

E na onda do se sujar faz bem, fico pensando em como minhas filha gostavam de fazer bolo de barro no quintal de nossa casa. Moramos por um tempo no interior de Minas e que bom que elas puderam desfrutar da terra, da água, dos pés e mãos dando forma a toda aquela lama. No entanto, se não há espaço aberto para isso hoje, nas grandes cidades, ainda existe soluções alternativas como a argila na área de serviço ou mesmo a massinha no chão do quarto, devidamente forrado com plástico. É uma pena que, a cada novo verão, seja possível ver menos crianças brincando de cavar buracos ou fazendo castelos de areia. Os adultos deviam continuar ensinando seus filhos a brincar na praia. É uma manipulação importante para o desenvolvimento infantil.

Quando o momento de construção da autonomia não é vivido satisfatoriamente, a criança pode desenvolver traços de personalidade ligados a obsessão por limpeza, meticulosidade, autoritarismo, e outros. Pode ser que estes traços apareçam como sintomas na escola: dificuldades de aprendizagem, cadernos "absurdamente" organizados, desenhos sempre com régua, uso excessivo da borracha, pouca interação social, autocobrança exacerbada. Quando o controle interno gerador de autonomia não é conquistado por meio das diversas experiências, a criança busca o controle externo, a organização do espaço, prende-se a forma e não ao conteúdo. Portanto, permita a manipulação, crie espaços para o comportamento investigativo, estimule a curiosidade que já faz parte do repertório infantil. E, acredite, porque é verdade: se sujar faz bem.

Lucíola Agostini é psicopedagoga clínica e pedagoga do Appredenre Espaço Psicopedagógico