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O terror do bullying

Duas preocupações constantes dos pais são o rendimento acadêmico e o comportamento dos filhos. Sabemos que as duas coisas estão intimamente ligadas, pois quando algo não vai bem na dimensão relacional e na dimensão desiderativa, ou seja, na área social e no campo do afeto, a aprendizagem fica prejudicada.

As relações sociais são extremamente importantes na saúde do indivíduo. Afinal é na escola que os primeiros círculos de amizade se constituem e é através deles que a criança pode se reconhecer, se diferenciar e construir sua identidade. Quando sente-se aceita passa a investir no outro, a fim de trabalhar o próprio eu, interagir e atuar no ambiente de forma positiva. A auto-estima é fortalecida e vencer desafios torna-se prazeroso. Em outras palavras, a criança não teme envolver-se com a própria aprendizagem já que tem a segurança necessária para investigar, levantar hipóteses, trabalhar com o erro, dialogar com o outro e construir novos saberes.

Muitas crianças ressentem-se mais por sentirem que sua dor é desprezada pelos adultos do que com o próprio bullying

Por outro lado, crianças com problemas relacionais desenvolvem sentimentos de ansiedade e medo, que as impede de construir um vínculo com a aprendizagem. Tornam-se apáticas, passivas, desinteressadas, desatentas, descomprometidas. Uma das questões sérias que as escolas enfrentam é o bullying, tão terrível para quem o sofre quanto para quem o pratica ou assiste.

O termo bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder. Estamos falando de ações do tipo: colocar apelidos, ofender, humilhar, discriminar, excluir, isolar, ignorar, perseguir, assediar, amedrontar, tiranizar, dominar, agredir, bater, roubar. Portanto, os atos repetidos entre iguais (estudantes) e o desequilíbrio de poder são características essenciais que tornam possível a intimidação da vítima.

É fundamental que, tanto na escola quanto em casa, a criança tenha liberdade para dizer o que pensa e o que sofre. O diálogo ajuda a entender e elaborar o que está acontecendo. A partir daí pode-se buscar estratégias para resolver o problema. Muitas crianças ressentem-se mais por sentirem que sua dor é desprezada pelos adultos do que com o próprio bullying. A parceria entre família e escola também é essencial no processo, pois uma das saídas positivas do bullying diz respeito ao desenvolvimento de ações de cidadania, tolerância e respeito mútuo, bem como uma maior conscientização acerca de valores morais e éticos. Nem a escola, nem a família conseguem atuar de forma eficaz em separado. Já o trabalho em parceria é potencializado.

Vale lembrar que o bullying não afeta apenas a vida do estudante que o sofre, no caso a vítima ou alvo. Aquele que pratica o bullying, chamado de autor, também precisa de um olhar atento da família e da escola, visto que está desenvolvendo comportamentos anti-sociais e sentimentos esvaziados de empatia. Aqueles que apenas observam o bullying, as testemunhas, também estão convivendo com a violência e se calam, muitas vezes, por medo de se tornarem as próximas vítimas. Da mesma forma que o alvo do bullying, a testemunha desenvolve sentimentos de menos valia, impotência e insegurança. Alguns alunos, ao perceberem que o comportamento agressivo não traz nenhuma conseqüência a quem o pratica, podem achar muito natural adotá-lo. E há também os estudantes que reagem negativamente por estarem submetidos a um ambiente de aprendizagem nada seguro, solidário ou sem temores. Todas as crianças, sem exceção, são afetadas em suas capacidades de desenvolvimento acadêmico e social. Para combater o bullying é necessário que a família e a escola sejam parceiras na tarefa de desenvolver as relações de respeito mútuo, tendo como foco as relações humanas, através do diálogo, do afeto e da educação.

Lucíola Agostini é psicopedagoga do Apprendere Espaço Psicopedagógico