Pai: pelo direito de ser coruja > Pai e mãe: rivalidade?

É bom lembrar que nos dias de hoje a figura paterna não é restrita somente ao pai biológico. Ela pode ser representada por um tio, um avô ou outro adulto do sexo masculino que participe da vida da criança e seja encarado como tal. "É interessante ressaltar que em nosso tempo não é mais o pai enquanto figura biológica que é importante. O importante é a figura paterna, ou seja, quem representa, no cotidiano das crianças, esse papel", explica o professor Beauclair. O fundamental é que exista esse referencial masculino para que, cada vez mais, as próximas gerações superem os preconceitos existentes na tradicional divisão do papel feminino e masculino na sociedade.

A mudança cultural a que fomos submetidos a partir da II Guerra Mundial possibilitou uma reflexão sobre a cumplicidade. "Homem e mulher passaram a refletir sobre a legítima necessidade de parceria entre os gêneros, seja como marido e mulher, seja como colegas ou sócios, seja como mãe e pai. A situação de disputa entre os pais, com a busca de exclusão de um deles é uma das situações de maior estresse que crianças e adolescentes enfrentam, e é o que gera dificuldades graves em separações litigiosas. Quando as separações conjugais não envolvem disputas e agressões entre os pais não prejudicam o desenvolvimento dos filhos, apesar das tristezas vividas", explica Sandra.

De acordo com a psicóloga Maria Luiza Uzun de Freitas, a mãe pode e deve incentivar a participação do pai na vida de seu filho. "A mãe deve favorecer momentos onde pai e filho possam conviver a sós, pois, dessa forma, ambos tem grandes chances de estreitar o relacionamento e aprender muito um com o outro", explica. Sandra Fedullo concorda: "Quando a criança desmama, e começa a andar, a presença do pai é ainda mais significativa. Ele representa o mundo maior, a saída da relação de dependência da mãe, as regras do mundo. É super interessante quando os pais são estimulados a passearem sozinhos com os filhos, levar à escola, ir às reuniões... Assim essa rede de experiências comuns é tecida e se fortalece", exemplifica.

A publicitária Alessandra Vasco, 34 anos, sabe da importância deste elo entre pai e filho: "Eu incentivo a participação do pai a começar pela divisão de tarefas. É essencial ele saber lidar com o bebê de forma independente. Sempre que tem algo novo faço questão de fazermos juntos. Seja uma medicação a ser tomada pela primeira vez, a ida à pediatra, acompanhamento de peso, altura e gracinhas que aprende no dia a dia", diz a mãe de Alícia, de 10 meses.

Algumas mães, mesmo inconscientemente, sentem medo de "perder" o carinho dos filhos ao promover um contato mais estreito envolvendo a criança e a figura paterna. Estas precisam entender que a relação com o pai deve ser de parceria, não de rivalidade. "Muitas vezes as mães não autorizam os pais a se aproximarem dos bebês. Observamos que quando o pai se envolve com os filhos pequenos, com cuidados básicos, rapidamente são criticados porque fizeram alguma coisa diferente do que a mãe teria feito. A maior parte dos pais considera que realmente sabe menos do que elas sobre esse universo, e assim podem ficar inseguros", esclarece Sandra Fedullo. Já os pais sentem um outro tipo de ciúme. "Há uma carência afetiva do pai em relação à mãe, que em determinados momentos está mais focada na vida do bebê e, por isso, não tem muito tempo para se dedicar ao companheiro", afirma Maria Luisa.

Participação ativa

A explicação para o convívio sem disputas é simples. Segundo Sandra, o ponto chave para o sucesso é fazer com que o pai tome parte nos procedimentos. "Se o casal está feliz, se estão razoavelmente preparados para a chegada de uma nova pessoa que precisa de muitas atenções, o pai será envolvido pelo processo, mergulhará nessa experiência e poderá ajudar no parto, na amamentação, e assim não se sentirá excluído e enciumado". Alessandra e seu marido, por exemplo, são bem resolvidos quanto à questão do ciúme. "Não há espaço para isso. O que existe entre pais e filhos é um amor incondicional, uma entrega total. É uma fase completamente nova onde temos ali na frente uma pessoa que depende tanto do pai quanto da mãe 1.000%!", define a publicitária.

Então, papais, arregacem as mangas! Nos dias de hoje é possível pensar em oportunidades de convívio intenso. Maria Luisa dá vários exemplos de como estar presente: "O pai pode participar da vida do filho ao procurar saber como ele está, ao tentar descobrir suas idéias à respeito do seu mundo, ao contar-lhe histórias, ao fazer-lhe um elogio, ao olhar nos seus olhos e expressar sinceramente seu sentimento em forma de um abraço, um sorriso ou por meio de palavras carinhosas, ao brincar com ele... e assim vai. Enfim, basta ter vontade", ressalta.

O pai deve entender que não deve duplicar a figura da mãe, e sim acrescentar uma nova dimensão à vida da criança. Quando participativos, os filhos sabem muito bem onde encaixá-lo na sua vida. "O pai é uma referência, representa segurança, força, um 'super-herói' até. Como exemplo a ser seguido, ela deposita nele confiança e amor incondicional", diz Maria Luiza. O psicopedagogo João Beauclair vai além: "É um mito achar que somente por um período o pai e a mãe são importantes. Eles são importantes por toda a vida".

E as crianças, mesmo as menores, reconhecem muito bem a figura do pai. "A Alícia é bastante apegada ao pai e o reconhece instantaneamente. Falou 'baba' (leia-se 'papai') antes de ‘mamã'. Mamãe, só em momentos críticos, como fome de madrugada! E não pode ver as fotos espalhadas pela casa que fica mandando beijo, e, é óbvio, fica falando baba, baba, baba", conta a mamãe Alessandra.

Com comportamentos assim, a família só tem a ganhar. "Uma conseqüência importante dessa mudança de lugar do pai na vida dos filhos, privilegiando a parceria na relação do casal, é o aprendizado precoce que os filhos terão de respeito, solidariedade e cooperação entre homem e mulher, pai e mãe. Conseqüentemente, compreenderão os limites e a construção do novo modelo cultural, em que a mulher é importante dentro da família e como profissional, e o homem tem seus espaços afetivos também privilegiados. Um modelo de homens e mulheres em cooperação, casamentos respeitosos, e filhos valorizados", destaca Sandra Fedullo.

A falta de interação entre pai e filho, em longo prazo, traz uma relação distante. De acordo com Sandra, quando os filhos estão maiores e as mães tomam a frente nas "conversas difíceis", sem perceber, empobrecem a relação do filho com o pai. "Essas situações infelizmente protegem o poder afetivo das mães sobre os filhos, enfraquecendo o aprendizado das negociações, adiando o amadurecimento dos filhos em suas competências para ir para o mundo", conclui.

O professor Beauclair ainda deixa uma reflexão. "Talvez seja um desafio assumirmos a função materna como uma conduta e não apenas como uma função das mulheres que são as mães biológicas: amor de mãe precisa ser desmistificado".

Os pais também podem ser corujas... Por que não?