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Esqueça: por que não dá (nem deveria) para guardar tudo na memória?

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Os Estados Unidos estão preocupados com seus soldados. Muitos filmes já exemplificaram o dano cerebral do combate que resulta em inúmeros casos de transtornos de estresse pós-traumático (“Sniper Americano”, de Clint Eastwood), mas a Agência Avançada de Projetos e Pesquisa em Defesa dos EUA (Darpa) provou que, desde 2000, cerca de 1,7 milhão de civis são afetados a cada ano por conta desse diagnóstico de ex-militares.

Por isso, desenvolveu um projeto para recuperar a memória ativa desses combatentes quando ainda estavam em campo. O programa chama-se “Restoring Active Memory” (‘Recuperando a Memória Ativa’) e pretende “acelerar o desenvolvimento da tecnologia disponível para encontrar esse desafio da saúde pública e ajudá-los a superar os déficits de memória”, segundo a Darpa.

A ideia é “desenvolver novas neuropróteses para preencher as lacunas cerebrais”.

Muito do avanço da ciência vem a partir das experiências com neuropróteses. Em 2013, por exemplo, brasileiros conseguiram fazer com que ratos pudessem ‘tocar’ luzes infravermelhas, desenvolvendo um sexto sentido. São elas, também, as responsáveis por restaurar movimentos de membros paralisados, estabelecendo uma comunicação deles com o cérebro.

Dessa forma, o Darpa pretende criar dispositivos para que o ser humano não se esqueça de nada. Ex-combatentes que sofrem com os danos considerados irreversíveis das guerras seriam os primeiros a testar essa tecnologia. Mas fazer com que nada seja esquecido não é tão simples assim.

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Como a memória é armazenada no cérebro

É importante entender que a memória não ocupa apenas uma parte de nossas mentes. Ela fica armazenada no córtex, na parte superior do cérebro, mas percorre um caminho até lá. Elas passam pelo hipocampo, que capta as memórias após um processo de codificação.

“Como nós experimentamos o mundo através de olhos, ouvidos e assim por diante, diversos grupos de neurônios do córtex trabalham conjuntamente para formar uma via neural de cada um desses sentidos e codificar esses padrões em memórias”, explica a professora Jyutika Mehta, especialista em Comunicação Científica da Universidade para Mulheres do Texas (EUA).

Por isso os sentidos têm tanta importância. Ao se lembrar de um aroma, por exemplo, podemos remeter a toda situação que envolveu esse aroma - um jantar com a família, um momento com o namorado, enfim. (Na literatura essa técnica foi utilizada: no início do século XX, o escritor francês Marcel Proust deu início à série de livros “Em Busca do Tempo Perdido”, centrado nos temas ‘tempo’ e ‘memória’, após narrar uma cena em que toma chá com biscoitos com um gosto que o leva à infância.)

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National Institute for Aging/Reprodução

Hipocampo

A memória (principalmente a temporária) fica armazenada no hipocampo, no córtex cerebral, e tende a se deteriorar com a idade. É por isso que os idosos têm mais trabalho de se lembrar de algum evento passado, e isso é natural. Isso ocorre, em suma, porque os neurônios começam a perder as conexões e o trajeto codificados pelo hipocampo. (É a danificação do hipocampo, inclusive, a responsável pelo mal de Alzheimer.)

Um dos principais argumentos de Jyutika para que o estudo da Darpa seja repensado é que “algumas coisas devem ser esquecidas”. Não apenas o que você comeu no mesmo dia de hoje no ano passado, ou onde deixou as chaves de casa. Isso vale, especialmente, para eventos traumáticos, como os militares que passam por experiências difíceis no campo de batalha.

“Pesquisas sugerem, e meus trabalhos relacionados às condições da memória corroboram, que algumas pessoas não têm a habilidade de esquecer eventos traumáticos”, diz a professora. “Essa característica é parcialmente responsável por condições como a depressão e o estresse pós-traumático”.

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‘Total recall’?

Por mais que a ideia do projeto RAM seja aliada a um trabalho psicológico complementar, revolver essas memórias pode ser algo mais trabalhoso do que se imagina. Apesar de dinâmica e flexível, nossa capacidade de lembrar-se das coisas está suscetível a distorções patológicas.

A ideia de “total recall”, como os cientistas norte-americanos têm chamado a habilidade de lembrar com clareza todos os detalhes de determinado evento, é mais utópica do que se apresenta.

Esquecer nos permite novos começos”, diz Jyutika, para “uma cura social e pessoal”. Noutras palavras, esquecer é humano.

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